O MEDO DO ENVOLVIMENTO
Parece que muitas pessoas estão sentindo medo do envolvimento. Num mundo que vem se tornando cada dia mais sombrio e frio; ser amado é algo extraordinário e cada vez mais raro. Isso porque o cultivo do amor demanda tempo e investimento, e a maioria das pessoas parece não estar disposta a “perder seu tempo” com um sentimento tão “piegas”. Verdade é que, por ser trabalhoso, o cultivo do amor tem deixado de ser prioridade, enquanto a paixão explosiva ganha expressiva preferência por ser mais ardente, rápida, superficial, descompromissada e passageira. Lógico que é destrutiva também, mas muitos sequer se dão conta dessa característica peculiar presente em milhares desses relacionamentos relâmpagos.
Faz muitos anos que o individualismo e o egocentrismo vêm sendo estimulados pelos meios de comunicação e formadores de opiniões, que reprovam investimentos emocionais em relacionamentos profundos e duradouros. Existe a crença de quanto mais, melhor; ainda que se perca em qualidade. Aliás, qualidade é o que menos importa; vez que o objetivo está focado na quantidade, ainda que isso desemboque com o passar dos anos num imenso vazio existencial. É comum muitos trazerem a queixa de sentir um “buraco no peito” ou um “imenso vazio” após passarem por experiências avassaladoras de paixões intensas, desprovidas de compromisso e real envolvimento. São corpos que se fundem, sensualmente frenéticos, mas que abrigam almas solitárias e medrosas, defensivas e facilmente tristes.
A preferência pelos relacionamentos líquidos, frágeis e descartáveis, em que os parceiros são trocados seguidamente visando “algo melhor” reside, quase sempre, no medo do genuíno envolvimento, em que a vinculação afetiva acaba por gerar cobranças e expectativas recíprocas. Surge a necessidade de “dar satisfações”, e passar a ter uma conduta diferente da praticada anteriormente. O receio de fazer uma má escolha, vinculando-se a alguém que apenas faça sofrer, é um dos fatores preponderantes para adiar cada vez mais esse decisivo momento, em que se busca alguém para um relacionamento sério.
Ocorre que, quando esse momento chega, as pessoas estão repletas de experiências fúteis e inconsequentes, colecionadas ao longo dos anos, e que foram, pouco a pouco, instaurando o ceticismo e colocando em dúvida a existência dos reais sentimentos. Nessa fase, grande parte das pessoas já não acredita mais no amor e abriga uma carência brutal dentro do peito, tendendo a reiniciar o ciclo vicioso de investida e fuga frente a quaisquer relacionamentos que venham a ser sentidos como ameaçadores da liberdade que se experimenta na roleta-russa de envolvimentos.
Maria Regina Canhos é psicóloga – E.mail: mariaregina.canhos@gmail.com
