A INDIGESTA CULPA

Há muitas definições para a culpa; porém vou fazer uso da que mais se adequa ao texto que desejo escrever. Neste caso, é a “consciência mais ou menos penosa de ter descumprido uma norma social e/ou um compromisso (afetivo, moral, institucional) assumido livremente”. A culpa é quase sempre combatida em razão de ensejar sofrimento para quem sente; então, mesmo os psicólogos mais experientes recomendam que a pessoa não se culpe por determinada ação ou omissão que deu causa ao resultado indesejado. Isso é compreensível e saudável num primeiro olhar, levando-se em conta especialmente o aspecto emocional; contudo, pessoas há que, por não conseguirem lidar com o sentimento de frustração advindo da culpa, buscam responsabilizar outros pelo seu insucesso.

De uns tempos para cá, tal situação tem sido recorrente. É comum entre alguns, recusarem-se a assumir sozinhos a culpa por suas escolhas inadequadas. Buscam inicialmente a quem possam imputar o malsucedido e, não encontrando, insistem em dividir a culpa com alguém, a fim de que a carga lhes fique mais amena. Procuram fugir de suas responsabilidades. Evitam refletir sobre seus valores, crenças e moral, tentando permanecer na zona de conforto, ainda abalada pelo resultado inesperado.

Nesse sentido, verificamos que a culpa também tem seu aspecto pedagógico e, por isso mesmo, recomendável para aprimorar o caráter das pessoas. Muito embora escrever sobre caráter hoje em dia seja um tanto complicado. É de conhecimento geral que os valores se relativizaram e o padrão moral afrouxou. Então, certamente existem aqueles que defendem colocar a culpa no outro ou dividi-la com alguém para que seja mais amena a quem verdadeiramente deu causa a adversidade.

Entre o certo e o duvidoso, prefiro ficar com o certo; vez que sou de uma geração na qual a maioria das pessoas assumia seus erros apesar de serem doridos, não culpabilizando outros pela própria desventura. Assim, recomendo processar a indigesta culpa, através da rememoração dos fatos, análise da previsibilidade do resultado indesejado do qual se assumiu o risco, reconhecimento do deslize, aceitação do infortúnio, concessão do autoperdão e estabelecimento do propósito de não tornar a transgredir. Fazendo assim, a culpa irá cumprir o seu papel educativo e poderá ser abandonada logo após haver alcançado o seu propósito.

Precisando de auxílio nessa empreitada, recorra a um profissional de ajuda. Muitos carregam pesados fardos há anos, sem deles extrair quaisquer lições. Para que a culpa alcance o seu caráter pedagógico é imprescindível que saibamos o momento de avançar, deixando-a para trás!

Maria Regina Canhos é psicóloga – E.mail: mariaregina.canhos@gmail.com